sábado, 13 de outubro de 2012

TRAINSPOTTING - SEM LIMITES


          Até onde uma vida hedonista e totalmente desregrada pode nos levar? Esse questionamento – aparentemente óbvio e pueril – habita a mente de Mark Renton (Ewan McGregor) ao longo das ações exibidas no filme Trainspotting – Sem Limites (1996) dirigido por Danny Boyle com base em roteiro de John Hodge inspirado no livro homônimo do escritor Irvine Welsh – que no longa-metragem atua no papel de Mickey, um traficante de quinta categoria.
            Na cultuada película de Boyle, Renton é um jovem viciado em heroína que passa seus dias pelas ruas de Edinburgo em companhia de um grupo de amigos desajustados que só pensam em se divertir – geralmente através do consumo de drogas – e que no período em que estão juntos experimentam todas as agruras comumente relacionadas a um estilo de vida tão autodestrutivo: brigas, crimes, prisões, overdoses, doenças e todo tipo de degradação física e moral que frequentemente resulta na mais inexorável das consequências – a morte.
            Calcado em uma narrativa ágil pontuada por grandes atuações e uma ótima trilha sonora, o filme se desenvolve enfocando a progressiva mudança no perfil do protagonista que, se inicialmente deixava claro todo o seu desprezo pela sociedade em que estava inserido – e por isso mesmo se dispunha a ultrajá-la com sua própria autodegradação – posteriormente sente-se tentado a mudar de vida e rever seus conceitos. Ao longo da trama, fica evidente que essa mudança acontece devido à tomada de consciência decorrente da observação do caos que se abate sobre seus amigos e também pelo estímulo trazido – ainda que de forma despretensiosa – por Diane (Kelly Macdonald), uma estudante adolescente com quem Renton se envolve.
            Entre os demais integrantes da turma, merecem especial destaque Spud (Ewen Bremner) que parece fadado a se dar mal em todas as suas iniciativas – a humilhante cena dos lençóis é tão nojenta quanto memorável – e Begbie (Robert Carlyle), um dos poucos que não é viciado em heroína, mas que possui um temperamento tão doentiamente violento que representa uma ameaça constante, inclusive para seus próprios companheiros.
            Fazendo uso de uma estética suja e sombria, repleta de cenas impactantes, o filme retrata de forma crua e direta o submundo dos viciados e marginais que perambulam pela capital escocesa, de tal forma que, na época de seu lançamento, dividiu opiniões e chegou mesmo a angariar detratores – principalmente nos EUA – onde foi acusado por alguns setores ultraconservadores da sociedade de fazer apologia ao uso de drogas. Porém, particularmente acredito que só uma observação tendenciosa e dotada de muita má vontade poderia interpretar a obra desta maneira, pois para mim – e creio que para a imensa maioria daqueles que assistiram – o filme faz exatamente o contrário: expõe de forma contundente o quão degradante, desesperançosa e fatídica pode ser a vida daqueles que se tornam escravos das drogas. Tanto que o termo “Trainspotting”, que dá título à história, é uma expressão incorporada pela gíria dos viciados escoceses e que pode representar tanto a atitude de se procurar uma veia para se injetar a heroína quanto o ato de se ficar sob o efeito de drogas simplesmente observando os trens passarem na estação, o que corresponderia a fazer algo inútil e sem sentido.
            Contudo, é preciso ainda dizer que os méritos de Trainspotting – Sem Limites, vão além de todas as considerações feitas até aqui. Sabe-se que hoje o filme é cultuado por uma legião de admiradores que o alçaram à condição de um dos maiores clássicos do cinema da década de 1990 porque ele soube captar com rara precisão o espírito de uma época – a transição dos anos 80 para os 90 – com suas aspirações não concretizadas, suas dúvidas e seus dilemas que muitas vezes davam aos jovens uma herança de liberdade que vinha também carregada de um senso de responsabilidade que por vezes se revelava um fardo pesado demais para ser suportando, podendo resultar tanto em escolhas equivocadas e catastróficas quanto acertadas e redentoras. Por isso o filme teve um apelo universal e marcou toda uma geração – que inclui este que vos escreve – não só na Grã-Bretanha, onde foi concebido, mas também no resto da Europa, na América do Norte e até no Brasil, onde foi amplamente difundido e apreciado.                   

sábado, 18 de fevereiro de 2012

DEVANEIO SOBRE A VIDA NA ESTRADA


                   Uma vida itinerante. Como seria?
                   Andar por todos os lugares, mas sem poder chamar nenhum de seu.
                Estender-se, expandir-se, mas sem fixar raízes, sem demarcar aquele local do recuo estratégico, aquele cantinho que – por mais simples e imperfeito que possa ser – quase adquire ares de sagrado quando, ao final de um dia desgastante e cansativo, se pode sentenciar: Por hoje chega. Agora vou para casa.
                 O refúgio, a fortaleza, o local onde estão as coisas que personificam uma parte da identidade de quem o habita. O teto sob o qual se ama, se briga, se chora, se sorri, se realiza ações consideradas aptas a serem compartilhadas com o mundo, e outras a serem muito bem guardadas, de preferência sob as lendárias sete chaves.
                   Podemos abrir mão por completo da convenção idílica que aprendemos a designar de lar?
              Alheio à resposta que se possa dar a este questionamento, é indubitável que do outro lado da moeda está o apelo itinerante, sempre persuasivo em seu convite ao desconhecido, e que carrega em sua essência um fascínio pelo qual poucos nunca se sentiram tentados.
              A possibilidade de pegar a estrada e seguir para onde quer que ela leve, deixando para trás as amarras sociais que muitas vezes nos aprisionam, nos diminuem, distorcendo nossa percepção da realidade, roubando – através de uma rotina maçante e execrável – parte de nossa verdadeira identidade e, por que não dizer, também da nossa dignidade.
                 Se não há um teto sob o qual reproduzir ações cotidianas, se não há a materialização de um ponto específico para ser chamado de lar, então o céu pode ser o firmamento que emoldura e testemunha a manifestação da liberdade, e cada lugar visitado, cada paisagem contemplada, cada olhar compartilhado pode representar uma parte única e insubstituível de um lar maior, não físico, não material, mas sim existencial. Com as memórias guardadas ao final de cada dia é que se constroem os alicerces e o invólucro da convenção de lar referente a este tipo de realidade: as experiências vividas.
                  Convidativo, não é mesmo?
            Então, ao refletirmos sobre essas duas possibilidades, estaríamos nos colocando diante de um dilema? Se acreditarmos que sim, devemos reconhecer também que a maioria das pessoas o resolve de forma espontânea, quiçá até mesmo intuitiva, optando por viver suas vidas de uma ou de outra maneira. Simples assim.
              Mas, e o meio-termo, a terceira via, a rota intermediária? Como seria poder viajar, sair estrada afora livre de preocupações secundárias – ainda que ocasionalmente – sem para isso precisar abrir mão da segurança e do aconchego de uma estrutura previamente estabelecida?
            Certamente, apenas a experiência pessoal de cada um que opta por explorar essa possibilidade – bem como qualquer uma das anteriores – é que pode inferir acerca de sua pertinência. As estradas podem ser as mesmas, mas cada ponto de partida é um marco original e cada destino é único, pois a viagem é percorrida de acordo com os anseios, as possibilidades e as particularidades de cada viajante.
             Do ponto de vista pessoal, minha maneira de lidar com esse tipo de devaneio paradoxal é deixando a mochila sempre organizada e ao alcance da mão. O chamado da estrada é sedutor, e às vezes eu opto voluntariosamente por me deixar seduzir.