quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

8MM - OITO MILÍMETROS

            Ao longo do tempo, muitos foram os teóricos que se debruçaram sobre as áreas da Filosofia, Sociologia e Psicologia defendendo teses de que o ser humano é uma criatura violenta por natureza, e que a única forma de fazê-lo conviver de forma mais ou menos harmônica com seus semelhantes é através da implantação de leis sólidas e um profundo senso moral. A História está aí para mostrar que desde os primórdios de nossas civilizações o homem fez uso da força para impor sua vontade sobre os demais, e isso vem gerando através da tortuosa trajetória humana uma infindável sucessão de atos de violência, que vão desde agressões domésticas que permanecem anônimas no silêncio das vítimas, até banhos de sangue originados em guerras de proporções mundiais.
            Mediante tão sombria constatação, um antigo e incômodo questionamento pode ser novamente trazido à tona: poderemos um dia atingir um patamar de evolução que faça com que verdadeiramente respeitemos uns aos outros na integralidade de nossas diferenças, ou estaremos para sempre na iminência de nos corromper e ceder ao primal impulso destrutivo da violência?
            O filme Oito Milímetros (8mm), lançado em 1999 com direção do polêmico Joel Schumacher e com roteiro do respeitado Andrew Kevin Walker, possibilita uma interessante reflexão sobre essa questão, de tal forma que pretendemos desenvolvê-la ao longo deste artigo.
            O enredo, em uma primeira análise, é simples: um pouco expressivo detetive particular chamado Tom Welles – interpretado por Nicolas Cage –, acostumado a investigar pequenos casos de traições extraconjugais, é contratado pela idosa viúva de um recém falecido milionário para dar conta de um inusitado mistério. Ela encontrou no cofre do marido um filme gravado em oito milímetros onde aparece uma moça sendo brutalmente violentada e assassinada diante da câmera por um homem mascarado. Chocada, tudo que a pobre senhora quer é descobrir se a película é fictícia ou real e, consequentemente, se a garota que nele aparece está viva ou foi realmente assassinada.
            Intrigado, Welles aceita o trabalho e mergulha fundo no sórdido submundo dos filmes pornográficos barra-pesada de Los Angeles, sendo auxiliado por Max Califórnia (Joaquin Phoenix), um músico fracassado que trabalha como balconista em uma loja de artigos eróticos e concorda em ajudar o detetive em troca de dinheiro.
            Conforme avança em sua investigação, Welles fica cada vez mais obcecado pelo caso, se afastando progressivamente da esposa e da filha pequena, e se esgueirando perigosamente por entre pedófilos e tarados diversos, em ambientes impregnados pela prostituição e pelas mais bizarras formas de perversão sexual. Quando finalmente encontra os responsáveis pela produção de snuff movies (filmes de caráter fetichista onde supostamente aconteceriam assassinatos reais diante das câmeras) o detetive já está no limiar da loucura e acaba sendo arrastado pelo turbilhão de violência e morte que descobriu.
            Sem dúvida, o ponto alto do filme é a possibilidade de se analisar as modificações ocorridas em Tom Welles ao longo do seu obscuro trabalho. No início, ele é mostrado como um sujeito pacato e simplório, que varre a grama de casa nas tardes de inverno e fuma escondido para evitar desagradar a esposa. Porém, o chocante contato com o submundo de perversidade e devassidão no qual penetra o converte em um sujeito transtornado e tão violento quanto os próprios indivíduos que investiga. E, neste ponto, acredito ser importante fazer um comentário sobre uma cena específica que, pelo seu teor polêmico, acaba suscitando diferentes interpretações, inclusive algumas que levam determinados expectadores a considerar o filme ruim e inverossímil, o que considero uma tremenda injustiça.
            A cena em questão corresponde ao momento em que o detetive, ao capturar um dos produtores cinematográficos responsáveis pelo filme em que a garota foi morta, telefona para a mãe da moça e pede se ela quer que ele mate o criminoso como forma de vingança. Diversas pessoas acham isso um absurdo sem lógica, mas para mim faz todo o sentido. Na verdade, Welles estava agindo da maneira que muita gente age nas mais diferentes situações: inventando uma desculpa para fazer o que quer, alegando que foram outros que mandaram. Quando pegou o produtor, o detetive poderia tê-lo entregue para a polícia, mas, transtornado como estava, sentiu uma vontade incontrolável de matá-lo de forma tão brutal como ocorreu com a garota que originou toda a investigação. Welles não era um assassino, mas sim um pacífico pai de família, e, naquele momento de profunda perturbação, criou para si mesmo um motivo para tentar justificar a sua vontade de matar. Me parece algo totalmente compreensível (atenção: estou dizendo compreensível, e não aceitável).
            Por fim, creio que o questionamento proposto no início deste artigo vai ao encontro de uma possibilidade interpretativa visualizada no filme e que faz eco ao adágio popular que decreta “diga-me com quem andas, e eu te direi quem és”, e que, neste caso, poderia ser adaptada como “diga-me por onde andas, e eu te direi quem serás”. Logicamente, isso não é uma regra ou padrão, pois cada pessoa tem seu caráter individual, e a suscetibilidade do mesmo está sujeito a uma quantidade incomensurável de variáveis. Porém, não se pode negar a existência daqueles indivíduos de maior vulnerabilidade, que são mais facilmente influenciáveis pelos ambientes e experiências com que travam contato.
            Tom Welles era um homem austero e de conduta aparentemente irrepreensível, mas conheceu o inferno e voltou de lá transformado em um assassino impiedoso, e a possibilidade de observar isso é, no meu entendimento, o que torna o filme mais interessante. Em uma realidade sem lei e tomada pela degradação moral extrema, o mal impera (tramar e filmar o assassinato de alguém por pura diversão é algo que não consigo classificar de outra forma senão como uma demonstração da mais genuína maldade), e transitar por este tipo de ambiente – sendo atraído ou perseguido pelo que há nele – converte-se em um considerável risco de ser influenciado a ponto de se deixar aflorar o que existe de mais obscuro no íntimo de cada um. Não é à toa que, quando questionado sobre suas ações, um dos assassinos da garota respondeu de forma impactante: “Eu nunca fui espancado, nunca sofri abuso, não tenho traumas... Faço isso porque gosto!”.
            Até mesmo a cena final do filme, onde o detetive aparece realizando uma atividade rotineira, soa propositalmente artificial, pois o homem que está ali não é mais o mesmo que conhecemos no início da história, em uma última demonstração de que, depois de se enveredar por certos caminhos, não há como voltar atrás.
            Em suma, mais do que um mero entretenimento, Oito Milímetros é um profundo e contundente estudo de personagem que, na minha humilde opinião, o coloca no patamar de um dos melhores e mais impactantes filmes de suspense da década de 90.                     

sábado, 13 de outubro de 2012

TRAINSPOTTING - SEM LIMITES


          Até onde uma vida hedonista e totalmente desregrada pode nos levar? Esse questionamento – aparentemente óbvio e pueril – habita a mente de Mark Renton (Ewan McGregor) ao longo das ações exibidas no filme Trainspotting – Sem Limites (1996) dirigido por Danny Boyle com base em roteiro de John Hodge inspirado no livro homônimo do escritor Irvine Welsh – que no longa-metragem atua no papel de Mickey, um traficante de quinta categoria.
            Na cultuada película de Boyle, Renton é um jovem viciado em heroína que passa seus dias pelas ruas de Edinburgo em companhia de um grupo de amigos desajustados que só pensam em se divertir – geralmente através do consumo de drogas – e que no período em que estão juntos experimentam todas as agruras comumente relacionadas a um estilo de vida tão autodestrutivo: brigas, crimes, prisões, overdoses, doenças e todo tipo de degradação física e moral que frequentemente resulta na mais inexorável das consequências – a morte.
            Calcado em uma narrativa ágil pontuada por grandes atuações e uma ótima trilha sonora, o filme se desenvolve enfocando a progressiva mudança no perfil do protagonista que, se inicialmente deixava claro todo o seu desprezo pela sociedade em que estava inserido – e por isso mesmo se dispunha a ultrajá-la com sua própria autodegradação – posteriormente sente-se tentado a mudar de vida e rever seus conceitos. Ao longo da trama, fica evidente que essa mudança acontece devido à tomada de consciência decorrente da observação do caos que se abate sobre seus amigos e também pelo estímulo trazido – ainda que de forma despretensiosa – por Diane (Kelly Macdonald), uma estudante adolescente com quem Renton se envolve.
            Entre os demais integrantes da turma, merecem especial destaque Spud (Ewen Bremner) que parece fadado a se dar mal em todas as suas iniciativas – a humilhante cena dos lençóis é tão nojenta quanto memorável – e Begbie (Robert Carlyle), um dos poucos que não é viciado em heroína, mas que possui um temperamento tão doentiamente violento que representa uma ameaça constante, inclusive para seus próprios companheiros.
            Fazendo uso de uma estética suja e sombria, repleta de cenas impactantes, o filme retrata de forma crua e direta o submundo dos viciados e marginais que perambulam pela capital escocesa, de tal forma que, na época de seu lançamento, dividiu opiniões e chegou mesmo a angariar detratores – principalmente nos EUA – onde foi acusado por alguns setores ultraconservadores da sociedade de fazer apologia ao uso de drogas. Porém, particularmente acredito que só uma observação tendenciosa e dotada de muita má vontade poderia interpretar a obra desta maneira, pois para mim – e creio que para a imensa maioria daqueles que assistiram – o filme faz exatamente o contrário: expõe de forma contundente o quão degradante, desesperançosa e fatídica pode ser a vida daqueles que se tornam escravos das drogas. Tanto que o termo “Trainspotting”, que dá título à história, é uma expressão incorporada pela gíria dos viciados escoceses e que pode representar tanto a atitude de se procurar uma veia para se injetar a heroína quanto o ato de se ficar sob o efeito de drogas simplesmente observando os trens passarem na estação, o que corresponderia a fazer algo inútil e sem sentido.
            Contudo, é preciso ainda dizer que os méritos de Trainspotting – Sem Limites, vão além de todas as considerações feitas até aqui. Sabe-se que hoje o filme é cultuado por uma legião de admiradores que o alçaram à condição de um dos maiores clássicos do cinema da década de 1990 porque ele soube captar com rara precisão o espírito de uma época – a transição dos anos 80 para os 90 – com suas aspirações não concretizadas, suas dúvidas e seus dilemas que muitas vezes davam aos jovens uma herança de liberdade que vinha também carregada de um senso de responsabilidade que por vezes se revelava um fardo pesado demais para ser suportando, podendo resultar tanto em escolhas equivocadas e catastróficas quanto acertadas e redentoras. Por isso o filme teve um apelo universal e marcou toda uma geração – que inclui este que vos escreve – não só na Grã-Bretanha, onde foi concebido, mas também no resto da Europa, na América do Norte e até no Brasil, onde foi amplamente difundido e apreciado.                   

sábado, 18 de fevereiro de 2012

DEVANEIO SOBRE A VIDA NA ESTRADA


                   Uma vida itinerante. Como seria?
                   Andar por todos os lugares, mas sem poder chamar nenhum de seu.
                Estender-se, expandir-se, mas sem fixar raízes, sem demarcar aquele local do recuo estratégico, aquele cantinho que – por mais simples e imperfeito que possa ser – quase adquire ares de sagrado quando, ao final de um dia desgastante e cansativo, se pode sentenciar: Por hoje chega. Agora vou para casa.
                 O refúgio, a fortaleza, o local onde estão as coisas que personificam uma parte da identidade de quem o habita. O teto sob o qual se ama, se briga, se chora, se sorri, se realiza ações consideradas aptas a serem compartilhadas com o mundo, e outras a serem muito bem guardadas, de preferência sob as lendárias sete chaves.
                   Podemos abrir mão por completo da convenção idílica que aprendemos a designar de lar?
              Alheio à resposta que se possa dar a este questionamento, é indubitável que do outro lado da moeda está o apelo itinerante, sempre persuasivo em seu convite ao desconhecido, e que carrega em sua essência um fascínio pelo qual poucos nunca se sentiram tentados.
              A possibilidade de pegar a estrada e seguir para onde quer que ela leve, deixando para trás as amarras sociais que muitas vezes nos aprisionam, nos diminuem, distorcendo nossa percepção da realidade, roubando – através de uma rotina maçante e execrável – parte de nossa verdadeira identidade e, por que não dizer, também da nossa dignidade.
                 Se não há um teto sob o qual reproduzir ações cotidianas, se não há a materialização de um ponto específico para ser chamado de lar, então o céu pode ser o firmamento que emoldura e testemunha a manifestação da liberdade, e cada lugar visitado, cada paisagem contemplada, cada olhar compartilhado pode representar uma parte única e insubstituível de um lar maior, não físico, não material, mas sim existencial. Com as memórias guardadas ao final de cada dia é que se constroem os alicerces e o invólucro da convenção de lar referente a este tipo de realidade: as experiências vividas.
                  Convidativo, não é mesmo?
            Então, ao refletirmos sobre essas duas possibilidades, estaríamos nos colocando diante de um dilema? Se acreditarmos que sim, devemos reconhecer também que a maioria das pessoas o resolve de forma espontânea, quiçá até mesmo intuitiva, optando por viver suas vidas de uma ou de outra maneira. Simples assim.
              Mas, e o meio-termo, a terceira via, a rota intermediária? Como seria poder viajar, sair estrada afora livre de preocupações secundárias – ainda que ocasionalmente – sem para isso precisar abrir mão da segurança e do aconchego de uma estrutura previamente estabelecida?
            Certamente, apenas a experiência pessoal de cada um que opta por explorar essa possibilidade – bem como qualquer uma das anteriores – é que pode inferir acerca de sua pertinência. As estradas podem ser as mesmas, mas cada ponto de partida é um marco original e cada destino é único, pois a viagem é percorrida de acordo com os anseios, as possibilidades e as particularidades de cada viajante.
             Do ponto de vista pessoal, minha maneira de lidar com esse tipo de devaneio paradoxal é deixando a mochila sempre organizada e ao alcance da mão. O chamado da estrada é sedutor, e às vezes eu opto voluntariosamente por me deixar seduzir.